Espiritualidade a partir de si mesmo

Anselm Grün e Meinrad Dufner, "Espiritualidade a partir de Si Mesmo", Editora Vozes (versão em espanhol: Una espiritualidade desde abajo, Ediciones Narcea)Fno entanto

Os que iniciam um caminho espiritual podem fazê-lo de duas maneiras diferentes: fixar o olhar num ideal e aplicar-se com todas as forças para consegui-lo ou trabalhar para construir o edifício do espírito desde a realidade de cada um.

Quando tomamos o primeiro caminho, frequentemente prescindimos da realidade e podemos converter-nos em sujeitos adormentados e divididos interiormente. No entanto, uma espiritualidade a partir si mesmo trata de abrir-nos às relações pessoais com Deus no ponto em que se esgotam e encerram as possibilidades humanas. Então, a autêntica oração brota das profundidades das nossas misérias e não do cimo das nossas virtudes.

Aquele que aspira a ser impecável, arrancando as suas paixões e o seu dinamismo, esvazia-se simultaneamente da sua debilidade e da sua força. Tudo o que se reprima ou se afasta fica privado de vitalidade. São precisamente as situações limite as que melhor podem facilitar-nos oportunidades de penetrar profundamente nos mistérios do mundo e da alma, de descobrir novos horizontes, a riqueza interior e transformar-se com ela.

O meio curativo dos nossos pensamentos e desejos é a presença de Deus. Diante Deus e em Deus reconhecemos que, definitivamente, é Ele em quem pensamos e a quem desejamos porque Ele é o único capaz de colmatar as nossas aspirações mais profundas. A cura e a transformação dão-se somente quando relacionamos tudo o que nos passa com Deus cheio de amor, que com o seu olhar amoroso nos encaminha para a verdade.

No momento em que me rendo diante de Deus é quando vejo claramente que não eu não posso libertar-me daquilo que me prende nem fazer-me melhor, é aí onde posso fazer uma nova importantíssima experiência de Deus, único capaz de fazer tudo o que eu não posso fazer.

A espiritualidade a partir de si mesmo convence-me de que nunca serei capaz de inventar um método para transformar-me e salvar-me. Devo, pelo contrário, recordar-me: apesar de todas os esforços espirituais e dos livros que lês continuarás enfrentando os mesmos problemas e nunca conseguirás ver te livras da tua sensibilidade e afetos desordenados.

Chegará um dia em que me sinta cansado de tantos ensaios e transformações. Tantas tentativas de sentir-me livre em Deus não será, então, devido à minha virtude da qual possa orgulhar-me, mas sim a expressão de estar apresentando-me nú diante Deus. Então deixar-me-ei cair em Deus, porque é a única possibilidade que me sobra. E sentir-me-ei, ao fim, livre de tantas absurdas pretensões de atribuir os méritos da minha espiritualidade a merecimentos próprios.

Se conseguimos chegar a aceitar que o caminho da humildade (experiência de Deus enquanto mistério infinito, comparado com a experiência que cada um tem de si mesmo como criatura limitada) é o caminho em direção a Deus, já não perderíamos o tempo combatendo contra a nossa natureza e em esforços inúteis para nos transformarmos.

Para subir a Deus temos que descer ao fundo de nós mesmos.

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